Pra onde vai o Design?

Raianne Rodrigues
Raianne Rodrigues, UI/UX Designer Rodrigues
2 de Setembro de 2019
  • #design

Nós vemos “design” em todos os lugares, literalmente. Design de sobrancelhas, carro design, design de flores, design sprint etc. O termo design está sendo empregado para caracterizar objetos e conveniências, tornando-os itens de luxo, best-sellers; elevando o status e a demanda de qualquer produto ou serviço. Uma palavra utilizada de forma extensiva e exagerada, principalmente quando relacionada a atributos visuais. Esses usos da palavra, como adjetivo, como impulsionador de vendas, negligencia e oculta significados que ultrapassam valores estéticos e que implicam na definição e potencial de tudo que uma disciplina pode ser e oferecer. Mas então que diabos é ou pra que serve Design? (aqui com “D” maiúsculo, mesmo)

De onde veio o Design?

Para falar sobre o Design vamos fazer uma breve contextualização histórica. Antes da Revolução Industrial, existiam artesãos e manufaturas que basicamente faziam peças em baixíssima escala. Por exemplo, um sapato. Esse sapato era feito para um indivíduo específico: seu pé era medido, a cor e material escolhido a gosto do freguês. Depois dessa revolução, os sapatos passaram a ser feitos em fábricas, em série, por máquinas. Essa indústria, que acabava de nascer, não se preocupava em personalização. Pelo contrário, se preocupava em produzir sapatos em quantidade, não em qualidade. Isso baixou o custo do produto tonando-os acessíveis a todos. Dessa forma, para vender mais e produzir em escala esse objetos foram reduzidos a versão simplificadas e genéricas de si.

A tentativa de reverter esses artefatos industriais em itens mais atraentes e eficientes foi tarefa dos então denominados “designers”. Esse trabalho, condensando muitos anos da história, passou por um processo de formalização e estruturação, dando origem a escolas de Design como a Bauhaus. Essas escolas revolucionaram o Design industrial. Eles formalizaram e estruturam a maneira com que o Design era executado e pensando, utilizando de ferramentas de ciências e disciplinas que já existiam. Os objetos agora eram produzidos pensando em um único propósito: funcionar da melhor maneira o possível para o ser humano. E a sua forma refletia de maneira extrema essa ideia.

O Bule de prata irlandês, 1846, ourives Robert W Smith, Dublin, Irlanda. X Bule de latão cromado, 1928, ourives e designer industrial Naum Slutzky, Hamburgo, Alemanha. Na comparação fica claro que adornos ou qualquer “adereços” que não auxiliavam operacionalmente ou funcionalmente eram retirados.

Por muito tempo, “a forma segue a função” (Louis Sullivan) foi levado ao pé da letra. Mas hoje vemos que não é bem assim. O Design, hoje, está passando por uma nova transformação por estarmos adentrando a chamada Revolução Tecnológica, em que o mundo está muito mais complexo do que no tempo das clássicas escolas de design. Com um mundo mais complexo, as pessoas demandam a capacidade de entender essas complexidades e ter acesso aos produtos oriundos dessa nova revolução. Ou seja, houve a necessidade de uma reaproximação e uma atenção maior aos valores humanos dos produtos e serviços oferecidos.

Valores Humanos? Pra quê?

Por que que o Design está atrelado a essa aproximação com os valores humanos? O design é uma disciplina que usa da percepção e subjetividade ao seu favor. Afinal, criatividade usa como combustível o repertório que adquirimos quando experienciamos o mundo, sob o espectro humano. Usa também de ferramentas e metodologias estruturadas (lado racional) bem como “beneficia da capacidade que todos temos, mas que são negligenciadas por práticas mais convencionais de resolução de problemas. […] Nossa capacidade de ser intuitivos, reconhecer padrões, desenvolver ideias que tenham um significado emocional, além do funcional, nos expressar em mídias além de palavras ou símbolos.” (palavras de Tim Brown, no livro Design Thinking). Essas “qualidades” permitem ao profissional do design uma visão mais empática ao lidar com as resoluções de problemas, assim como outras áreas e profissões humanas.

O designer é treinado ao longo de sua graduação a conhecer e aprender diferentes conteúdos de diferentes disciplinas, assim como juntar partes de experiências, que são percepções continuadas do mundo, num todo para criar um conceito e materializá-lo. O designer, então, é um criador de conceitos. (aprendemos isso com o Prof. Vinícius Romanini, doutor em Ciências da Comunicação)

Essa é a identidade de uma Casa de chá chamada Cha.ology. Ela foi fortemente influenciada pela cultura tradicional de beber chá do Japão. Nas palavras dos criadores, livremente traduzidos a seguir: "Encontramos nossa inspiração no Sistema de Piso Tatami. Eles são feitos de uma série de blocos que empilham e encaixam juntos em uma formação de grade. Usamos essa grade como base para nossa marca. As palavras Cha ology foram divididas e colocadas dentro de diferentes blocos de tatami que criaram uma marca dinâmica e intercambiável que referencia o ambiente e o interior da casa de chá.

É este criador de conceitos que “estabelece a correspondência entre as necessidades humanas com recursos técnicos disponíveis considerando as restrições práticas dos negócios.” (Tim Brown de novo no texto) Os produtos que vemos e usamos hoje são pensados pelos designers a modo que seja integrado o desejável (pelo consumidor) com o tecnologicamente e economicamente viável de ser feito.

O que é curioso, como mencionado na introdução deste texto, é como uma disciplina virou hype, se matérias baseadas na percepção e subjetividade são desvalorizadas e por vezes negligenciadas? Conectamos a incompreensão sobre que é design com o fato de ele ir além das matérias e disciplinas palpáveis como processos de fabricação, cálculos de ergonomia, cálculos de entrelinhas de texto e por aí vai. Um exemplo disso é a sistematização do processo criativo com diversas ferramentas embasadas em extensos argumentos. O que não é errado, mas a criatividade apenas é aceita após materialização em processos palpáveis aos diferentes tipos de raciocínio.

A percepção e a subjetividade são qualidades perdidas nessa sistematização do processo criativo, entretanto deve-se entender que essas qualidades são similares aos processos automáticos como ao de dirigir um carro. No início, nos primeiros meses de carteira de habilitação, nós prestamos atenção a todos os movimentos e processos de fazer o carro andar, parar, seguir as regras de trânsito; estar atento a marcha certa a ser usada, e onde está os comandos do carro. Eventualmente isto se torna um processo automático, e você apenas reproduz os processos necessários sem nem perceber. Mas até este processo ser automatizado, foram diversas construções de conhecimento, treinos e práticas de maneira consciente e pensada.

Pra onde vai o Design?

O Design está seguindo um terceiro caminho, uma integração entre empatia/subjetividade (e tudo que advém disso) e método/racionalização (e seus processos e ferramentas). É a valorização e entendimento da percepção humana a favor do ser humano, criando para ele. Não é o emocional em detrimento do racional, mas o racional unido ao emocional. Isso tudo para criar novos produtos que equilibrem as necessidades de indivíduos e das sociedade como um todo; estratégias novas que façam a diferença e um senso de propósito que inclua a sociedade e cada um de seus indivíduos.

Podemos observar esse novo caminho sendo construído quando termos como “metodologia centrada no usuário” ou “Design Thinking” são recorrentes nos mais diversos ambientes: desde startups até órgãos públicos.

O futuro do design é ter mais consciência sobre o processo de formalização, documentação, uso de ferramentas. É utilizar do método do Design, agregando a percepção e empatia para a evolução, aplicação e desenvolvimento desse método. Principalmente quando inserido na Revolução Tecnológica, onde as relações estão cada vez mais impessoais ou mediadas por interfaces virtuais e realidades aumentadas, o aspecto humano se faz cada vez mais necessário neste novo mundo, mais complexo.

“A atividade do design como uma força na cultura e sociedade, com potência política e de engajamento, envolvendo ética de colaboração e produção distribuída pelo tecido da sociedade.” Caio Adorno Vassão

Este texto foi escrito por Marina Alves e Raianne Rodrigues 🙂


Referências

CARDOSO, R. Design para um mundo complexo. ed. Cosac Naify, 2011

ROMANINI, V. Design e Semiótica. Palestra no N Design SP, 2015

BRONW, T. Design Thinking. ed. Elsevier, 2010

VASSÃO, C. A. Metadesign: Ferramentas, estratégias e ética para a complexidade. ed. Blucher, 2010 1ª edição 2015

www.acsilver.co.uk

http://collections.vam.ac.uk/item/O121379/teapot-slutzky-naum/

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Raianne Rodrigues
Raianne Rodrigues, UI/UX Designer Rodrigues

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